Resenha: “Meio sol amarelo” de Chimamanda Ngozi Adichie

8 11 2015

 

 

biafraGuerra de Biafra
Muraina Oyelami (Nigéria,1940)
Óleo sobre papel colado em painel, 75 x 183 cm

 

 

Chimamanda Ngozi Adichie parece determinada a abordar temas complexos e comentá-los com a visão da vida comum, do dia a dia de quem os enfrenta. Assim foi com Americanah, livro pelo qual conheci a autora nigeriana, onde as nuances do racismo, de todas as cores e aspectos dentro e fora do território nigeriano, foram exploradas. O mesmo processo foi usado em Meio Sol Amarelo, um trabalho anterior, retratando a guerra pela independência do sudeste da Nigéria, ocupado pela cultura Ibo, que tentava estabelecer a República de Biafra. O título por si só telegrafa o período mais importante em que a história se desenvolve, os três anos da guerra de 1967 a 1970 pois a bandeira do futuro estado independente de Biafra tinha no centro meio sol amarelo com onze raios, cada um representando as onze regiões do território Ibo.

Sem se deter em muitos detalhes políticos ou culturais para a guerra da independência, Chimamanda Ngozi Adichie retrata como diferentes pessoas reagem quando o conflito começa. A guerra é, portanto, mostrada através do efeito que ela tem sobre os membros da sociedade Ibo. O texto dá ao leitor a oportunidade de entender aqueles que fogem para a Grã-Bretanha; aqueles que ficam e conseguem tirar proveito da guerra; os que a ela se dedicam com fervorosa coragem; e a grande maioria, quase indiferente, inocente, ignorante e cativa dos processos governamentais, para quem a sobrevivência é o que importa. Adichie consegue retratar todas essas pessoas sem crítica, com um olhar independente, ainda que a grande saga se encontre entre os idealistas revolucionários que seguimos com observação cautelosa e ímpar. Concentrada no retrato de uma família da classe média alta, nigeriana de origem Ibo, afluente, educada, intelectualizada, parte do estabelecimento pré-guerra, mas com membros revolucionários, que se encontram no coração do conflito, a narrativa passa por todas as possíveis e diversas reações que cada um desenvolve ao conflito.

 

MEIO_SOL_AMARELO_1384016305B

 

A Guerra da Independência de Biafra foi a primeira guerra televisionada no mundo, mas nem por isso bem compreendida. A Nigéria, como a maioria dos países no continente africano, teve seu território desenhado por europeus – britânicos nesse caso – que ao colonizarem o país juntaram indiscriminadamente três grupos culturais (Hauçá, Ioruba e Ibo) com línguas, modos de governo e religiões diversas sob uma única bandeira. Impuseram o sistema político e a língua inglesa. À medida que o poder britânico se enfraqueceu depois da Segunda Guerra Mundial conflitos entre as diferentes etnias dentro da mesma fronteira se acentuaram. A tentativa de independência do povo Ibo foi uma consequência natural do processo. No entanto, o resto do país, auxiliado pelos ingleses, fez um cerco ao território de Biafra impedindo a independência dos Ibos. O território era rico em petróleo e não poderia passar para as mãos de outro governo. Para isso proibiram até mesmo a entrada de gêneros alimentícios e produtos de primeira necessidade ao território rebelde. O mundo ocidental teve então a oportunidade de ver quase que em tempo real, através da televisão, fotos e imagens da fome, do desespero dos refugiados, no conforto de sua própria casa pela primeira vez. Foi um abalo geral. Chimamanda Ngozi Adichie não se concentra nessas imagens ainda que elas façam parte integral da narrativa. A solução brilhante que conseguiu para retratar a guerra foi a multiplicidade de narrativas. Cada pessoa de uma mesma família e de seus dependentes tem a oportunidade de reagir à desumanização do conflito.  E o faz de diferentes maneiras. Até mesmo um “comentarista” inglês consegue ser inserido na narrativa, nesse núcleo familiar, dando ao leitor de hoje, uma visão simultânea de fora e de dentro do campo de batalha.

 

chimamandaChimamanda Ngozi Adichie

 

Meio Sol Amarelo é uma tentativa de recuperação do passado. A autora lembra a importância de se manter a memória da guerra, do ideal de independência, do sacrifício da geração de seus pais, da tentativa de extermínio de uma etnia, do sofrimento do povo Ibo. E com isso mantém também os parâmetros da identidade cultural. Até hoje, os conflitos étnicos e religiosos da Nigéria não foram resolvidos. A recente onda de ataques de extremistas muçulmanos no país trazem a tona mais uma vez a fragilidade da coesão nigeriana. Por isso mesmo uma narrativa com o escopo e qualidade encontrados nesse livro chega na hora certa. Uma obra ambiciosa e muito bem executada.

 

 


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