Quadrinha do afeto

11 12 2012

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amizadePato Donald e urso tornam-se amigos, ilustração de Walt Disney.

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Planta a semente do afeto

em tua estrada e verás

brotar um mundo repleto

de compreensão e de paz.

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(Lila Ricciardi Fontes)





Os presentes de Natal, texto de Marques Rebelo

7 12 2012

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brinquedos 2, blanche wrightIlustração de Blanche Fisher Wright.

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27 de dezembro [1936]

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O presente mais lindo não é o mais caro, é o mais frágil – a caixa de cubos com os quais as mãozinhas inexpertas poderão formar um prado florido, dois cachorrinhos brincando, a galinha branca, orgulhosa dos pintainhos.

Há ainda a bola de sete cores como um arco-íris de borracha, a piorra cantadeira e o pelotão de chumbo pregado no papelão.

Paro um instante comovido – ah, a roda da vida, roda da vida rangente ou azeitada! Quando acordei, acordei general  – trinta e seis soldadinhos me esperavam ao pé da cama, túnica azul, calça vermelha, baionetas em riste. As trincheiras foram abertas debaixo das begônias, as roseiras deixavam cair as pétalas sobre os herois, todo o jardim sofreu com as batalhas delirantes, enquanto Madalena fazia comidinhas para a nova boneca e Emanuel folheava, no alpendre, o livro de gravuras de Rabier.

Deposito o último brinquedo com cuidado, não fosse despertá-las. Porejadas  de suor, as crianças dormem. Na parede, como prego, dorme também o pernilongo, pesado de sangue que também é um pouco meu, apesar da incredulidade rancorosa de Mariquinhas”.

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Em: O trapicheiro, Marques Rebelo, 1º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1959, 1ª edição, numerada.





O Reisado no Natal– texto de Gilberto Amado

3 12 2012

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assis costa reisado floral

Reisado floral, 2009

Assis Costa ( Brasil, contemporâneo)

acrílica sobre tela

Assis Costa

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“Para criança, o reisado é um deslumbramento. Os vestidos das pastoras e rainhas, o brilho dos canutilhos de folheado, o espelhante dos enfeites de latão, os laços de fita e os frocados de papel de seda, o relampejar das coroas de reis, rainhas e princesas, as sapatinas de cetim, todo ouropel da vestimentária já é uma festa. Os cantos, “Ò minha barca bela”, “Ó minha gurinhatá, aonde vais beber?”“, trançados de recordações da colonização e da adaptação à terra, o mar presente, os pássaros, os bichos, tudo isso tecido de episódios impregnados de drama, mostra a riqueza do gênio popular. A criança participava do reisado como se fosse personagem dele. Menino no reisado sente-se também rei como o rei da festa.

A muitos natais assisti em Itaporanga em tempo de férias. Menino está sempre em casa a esse tempo. Quando já taludo, nos tormentos da puberdade, peguei namoro num desses natais com uma dançarina de reisado, uma sertanejazinha levada da breca, cuja família por sinal acabou estabelecendo-se em Itaporanga. Encontrávamos, para  nossos idílios, no fundo do quintal da casa dela que acabava ao pé do oiteiro, lugar que seria ideal para esses encontros sem a água de um valado que passeava por ali. Na casa junto morava o estafeta dos telégrafos inaugurados havia pouco. Cantadiano (era seu nome) dava-se à brincadeira de irromper de dentro de umas toiças altas assim que nos juntávamos e de passar num ruído de bicho rasgando o mato e fazendo com que, na pressa com que nos separávamos, sujássemos os pés no valado. Divertia-se o idiota com essa perversidade”.

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Em: História da minha infância, Gilberto Amado, Rio de Janeiro, José Olympio:1966, 3ª edição.

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NOTA WIKIPÉDIA:

Reisado é uma dança popular profano-religiosa, de origem portuguesa, com que se festeja a véspera e o Dia de Reis. No período de 24 de dezembro a 6 de janeiro, um grupo formado por músicos, cantores e dançarinos vão de porta em porta anunciando a chegada do Messias e fazendo louvações aos donos das casas por onde passam e dançam. Reisado também é muito conhecido como Folia de Reis.

O Reisado é de origem portuguesa e instalou-se em Sergipe no período colonial. Atualmente, é dançado em qualquer época do ano, os temas de seu enredo, variam de acordo com o local e a época em que são encenados, podem ser: amor, guerra, religião entre outros.

O Reisado se compõe de várias partes e tem diversos personagens como o rei, o mestre, contramestre, figuras e moleques. Os instrumentos que acompanham o grupo são violão, sanfona, ganzá, zabumba, triângulo e pandeiro.





O cabrito, poema de José Paulo Moreira da Fonseca

23 10 2012

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Cabrito, gravura antiga.

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O cabrito

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José Paulo Moreira da Fonseca

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Povoaste a paisagem grega

————–guardas um timbre clássico algo de conciso

ágil e jovem — quem negaria? — basta ver-te sobre os abismos

sem receio ou vertigem

—————como a vida

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Em: Antologia Poética, José Paulo M. F., Rio de Janeiro, Leitura: 1968





Andorinhas, poesia de Stella Leonardos

23 09 2012

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Andorinhas no galho, aquarela, Sherri Friesman.

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Andorinhas

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Stella Leonardos

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Namoradas do sol, andorinhas inquietas,

Poesia dos beirais de asas leves e errantes!

Vocês vêm vocês vão como versos trissantes

De sílabas azuis, de rimas incompletas.

Andorinhas azuis de revoadas constantes!

Você me lembram sempre a saudade dos poetas

Incansáveis da altura e dos céus mais distantes.

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Em: Pedra no Lago, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956.

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Stella Leonardos da Silva Lima Cabassa (Rio de Janeiro RJ, 1923). Poeta, tradutora, romancista, com mais de 70 obras publicadas, em poesia, prosa, ensaios, teatro, romances e literatura infantil.  Considerada membro expoente da 3ª geração de poetas modernistas.  Um dos maiores nomes da poesia contemporânea no Brasil.





Em resposta às dúvidas sobre alguns textos antigos postados aqui: Marisa Lajolo fala sobre a obra de Monteiro Lobato

14 09 2012

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Desde que tenho postado alguns contos antigos que fazem parte da nossa herança cultural tenho recebido questionamentos sobre a necessidade de se reformular os contos para ajustarmos essas tradições à cultura moderna.

Sou contra.

Hoje foi uma indagação, bem educada, — elas nem sempre são –  sobre Os três companheiros, conto da tradição oral coletado por Luiz da Câmara Cascudo.  Mas já tive comentarios e até pedidos de retirada  sobre outras postagens.   Sou contra a modificação de qualquer dessas tradições folclóricas para que  se ajustem aos modos do momento.  Sou inclusive contra  a modificação da música infantil Atirei um pau no gato.  Acho que estamos sistematicamente assumindo que as pessoas de hoje não têm a habilidade de distinguir o que é certo do que é errado.  Isso é de um reducionismo colossal.  E acredito que muitas vezes essa tentativa de censura reflita no fundo um medo sobre as massas serem educadas, as massas que “não sabem distinguir o certo do errado.”  Posto hoje o comentário da Profa Maria Lajolo como resposta.

E antes de alguém vir falar sobre direitos dos animais, sugiro que vejam a postagem que tenho sobre a fotógrafa Ellen van Deelen.





A cidade, poesia de Luís Pimentel

8 09 2012

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Dia de chuva em São Paulo, 2009

Carmelo Gentil Filho (Brasil, 1955)

óleo sobre tela, 80 x 110 cm

www.cgentil.com.br

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A cidade

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Luís Pimentel

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Uma cidade não é medida

por becos e logradouros,

nem lembra contas e cálculos

que a gente parte e reparte.

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A cidade é o que fica:

solidão, engenho e arte.

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Uma cidade é um rosário,

voltando sempre ao começo.

Não é o filho querido,

que quando cresce evapora.

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A cidade  é o que se conta

no calcanhar da memória.

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Em: O calcanhar da memória, Luís Pimentel, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 2004





Escrevendo resenhas de livros: crítica positiva ou negativa?

24 08 2012

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Aisha lendo Joseph Campbell, 2000

Milé Murtanovski (Canadá, 1979)

Aquarela,  57 x 57 cm

Milé Murtanovski

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O artigo de J. Robert Lennon, How to write a bad review, do dia 18 de agosto deste ano, publicado na Salon, aborda um tema digno de reflexão: o papel a crítica nos romances de ficção.  Desde que a internet se tornou a sala de estar para o encontro de ideias e de gostos literários, vejo resenhas de livros de toda espécie.  A prática é mais acentuada nos Estados Unidos que têm longa tradição de incentivo nas escolas secundárias e no nível universitário à crítica de texto e à total liberdade de expressão.  Em suma, não há por lá os parâmetros que enfrentamos aqui no Brasil, quer na crítica literária, quer na campanha política, nem tampouco nas regras da publicidade.  Parâmetros que limitam  a comparação explícita de produtos semelhantes de diferentes marcas, que proíbem a menção de um concorrente em campanha política.  Essa distorção brasileira, que tenta abrandar a competição e evitar a priori o que poderia ser considerado competição “desleal” leva a que não se possa debater verdadeiramente qualquer assunto, muito menos uma obra de ficção.

Meu passado como leitora/crítica inclui resenhas publicadas para jornais americanos, algumas das quais chegaram até a ser mencionadas como blurb nas contracapas de edições mais populares de livros criticados por mim  – cito, como exemplo, a contracapa de The Road to Lichfield, de Penelope Lively.   Meu hábito de escrever resenhas vem de longa data, como já expliquei anteriormente no blog: faço-as porque elas me ajudam a finalizar, a sedimentar a leitura de um livro.  Quando a Amazon apareceu abrindo seu espaço para resenhas e até listas de recomendação, passei a escrever lá sobre livros que lia. Até listas de livros recomendados cheguei a fazer sobre assuntos diversos.

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Café, década de 1920

Gerda Wegener (Dinamarca, 1886-1940)

gravura

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O hábito veio comigo para o Brasil. Depois de me familiarizar com publicações brasileiras, coloquei algumas opiniões no portal da livraria online Submarino.  Qual não foi a minha surpresa ao verificar que pelas regras do portal, eu não poderia fazer comparações com qualquer outro livro [mesmo que do mesmo autor] e que as resenhas mais críticas, mostrando o meu desgosto ou desprezo pelo que acabara de ler, não poderiam e não foram publicadas.   Na época — e já lá se vão uns quase dez anos — fiquei pasma com o cerceamento à minha liberdade de expressão.

Comparando a experiência que tive entre esses semelhantes portais (ambas livrarias na rede que aceitavam a opinião dos leitores) havia uma evidente tentativa de censura a qualquer opinião negativa no Brasil.  Isso justificava, em parte,  a  insossa lista de opiniões sobre livros no portal da companhia brasileira.  Críticas ou opiniões que se limitavam a expressões adolescentes quer na idade ou na mente.  “AMEI!” ou pior ainda,” acho que vou gostar, ainda não li”  eram frases comuns encontradas nas supostas opiniões sobre livros de diversos autores.  Não sei se o portal Submarino mudou sua política quanto a opiniões dos leitores.  Não sei, porque me desinteressei de colocar minhas opiniões por lá.  E agora, já a caminho do quinto ano do blog, coloco minhas resenhas aqui e assim como no portal SKOOB onde nunca tive minhas opiniões limitadas ou censuradas.

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Leitora, [La Liseuse] 1873

Jules Dalou (França, 1838-1902)

Terracota

Museu  de Arte, Rhode Island School of Design, EUA

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Diferente do que propõe o autor J. Robert Lennon há alguns anos não escrevo resenhas de livros de que não gosto.  Já tive essa fase, e causei algum espanto quando desbaratei com um livro de contos da premiada Nadine Gordimer por achá-los previsíveis demais e outra em que reclamei dos lugares comuns na prosa de Isabel Allende.  A decisão de não escrever sobre aquilo de que não gosto vem dos últimos vinte anos. Não tenho a verve da ironia, do sarcasmo bem controlado, da palavra destruidora em uma única nota que vemos nos grandes críticos literários ou de arte. Esse dom me escapa. Ainda este mês, fiz uma pequena homenagem ao crítico de arte Robert Hughes, cujo falecimento havia sido anunciado.  Homenagem merecida por ele ter sido tão consistente na defesa de suas opiniões, mantendo-as claras, irônicas ou sarcásticas quando assim achava necessário.  Ele brindava o espírito crítico, o posicionamento sem apelos ao politicamente correto.  Muitos outros grandes críticos conseguem surpreender e suscitam um sorriso de reconhecimento por um ponto de vista sagaz, acurado, mesmerizante.  Isso acontecia com Gore Vidal, Oscar Wilde ou até mesmo Eça de Queiroz.  Minhas limitações não me deixam escrever assim, ainda que aprecie quem consiga se posicionar de maneira lúcida e aguda ao analisar um livro, uma obra de arte.

Por outro lado, depois que percebi o alcance que uma crítica colocada na rede pode ter, desisti de escrever resenhas de livros de que não gosto, de promovê-los mesmo que negativamente. Seria um absurdo fazer propaganda para algo que não endosso. Decidi então examinar porque certos livros se mostram interessantes na leitura e procuro explorar esse aspecto e incentivar as boas características do que leio ao longo do caminho.

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Sem título

Carmen Segovia (Espanha, 1978)

www.carmensegovia.net

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J. Robert Lennon menciona o grande número de críticas literárias que apareceram na rede desde a popularização dos blogs. Tanto nos Estados Unidos – de onde ele escreve – quanto no Brasil, onde nos encontramos, houve uma verdadeira inflação de resenhas literárias nos últimos dez anos.  Parece que todo mundo descobriu que pode dar a sua opinião.  E todos esperam que suas opiniões sejam lidas e apreciadas.  Deixamos de ficar calados e saímos à procura de “gente como a gente” nessa aventura coletiva da internet.  Esse fenômeno tem tudo para mudar o comportamento de todos os envolvidos: leitores e escritores.  Mas como está sendo usado?

Diferente dos Estados Unidos, a grande maioria dos usuários ativos na internet no Brasil  –   e certamente daqueles que se dispõem a escrever resenhas — são jovens.  Há uma timidez  no Brasil ao uso da internet por aqueles acima dos quarenta anos, e aversão generalizada por pessoas que temem a exposição demasiada, pelejam pela privacidade, como se não pudéssemos controlar aquilo que colocamos na rede.  Isso aumenta o domínio dos jovens nas discussões online, nos comentários, nos blogs, nas críticas.  Esses jovens críticos literários parecem estar ainda no processo de formação acadêmica na escola ou na faculdade. Testam suas habilidades e opiniões; procuram a identidade de suas cabeças pensantes.

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A grande leitura do dia, 1950

Jean Hélion (França, 1904-1987)

óleo sobre tela, 128 x 190 cm

Coleção Particular

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Nos portais dedicados à leitura, grande parte simplesmente copia e cola sinopses, menciona sem caracterização que adoraram a leitura, com uma ocasional menção da trama.  Parecem querer mostrar que leram os livros, mas fica por aí.  E há os que sentem a obrigação de mencionar autores clássicos, quando não filósofos, sedimentando suas opiniões nas raízes do passado, na boa atuação acadêmica, como se ter opiniões só fosse válido se nos mostrássemos eruditos. Refletem assim a posição acadêmica de praxe.  Na pressa de se mostrarem sábios ligam-se ao anacronismo da divisão de profetas da direita e da esquerda. Como se o mundo ainda se dividisse assim. Mas não é culpa deles.  É nossa.  Porque aceitamos diariamente esse tipo de discurso.

Há uma divisão marcante, cá, do lado de baixo do Equador,  entre Literatura e literatura, entre o que “Vale a pena ler” e o que “Não serve para nada”.  Uma divisão que desvenda um intelectualismo preconceituoso, uma hierarquização proporcional à elitização da cultura, um enfoque incompatível com a educação ampla e com o livre acesso digital.  Isso distancia bastante os intelectuais dos amantes da ficção.  Nos jornais, nos cadernos dedicados aos livros, cansamos de ver críticos esnobando o leitor médio, para dar espaço unicamente a alguma tese linguística do momento, alguma visão crítica europeia, que tira o chapéu para o filósofo da moda de esquerda ou para o filósofo que abandonou “os poderes nefastos da direita”.   Pouco se fala no prazer da leitura, nos motivos ou nas razões para nos deliciarmos, para refletirmos por algumas horas ou alguns dias, envolvidos por uma obra de ficção.  A leitura por esses supostos analistas da literatura não parece sedutora, não acorda sentimentos, não sacia fomes, não embriaga.

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Robin com o amigo Trixie, em Torquay, 1952

Peter Samuelson (Inglaterra, 1912-1996)

óleo sobre tela, 64 x 84 cms

Coleção Particular

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E, no entanto, são justamente as pessoas que não se interessam pelas teorias da moda, pelo filósofo do momento que agitam o mundo das publicações.  São esses leitores, que não se veem refletidos nos cadernos literários dos jornais, que mantêm editores, agentes e livrarias no azul, pessoas que compram livros recomendados por amigos, na mais preciosa das propagandas, o boca a boca, e que fazem de seus autores preferidos casos de sucesso literário, além, muito além da “mídia especializada”.  Diversos nomes ilustram essa divisão entre o que alguns consideram bons e o que o público aclama. A nossa história contemporânea de publicações está repleta desses fenômenos ignorados pela crítica, mas aplaudidos pelo público:  Rosa Montero, Muriel Barbery, Paolo Giordano, Fal Azevedo, Ronaldo Wrobel, Frances de Pontes Peebles, Maria Dueñas são só alguns dos que vêm à mente no momento. E não adianta dizer que o publico é inculto.  Aquele que hoje vai a uma livraria e compra um volume para leitura não é inculto.  É muitas vezes mais letrado do que os próprios críticos que se esforçam em preservar um preciosismo antiquado e segmentar as camadas de leitores, sem lhes dar crédito.  Todos perdem com essa cegueira que nos aflige: leitores, futuros leitores, autores, editores.  E nós também perdemos espaço para trocar ideias, para encontrar pessoas de gostos semelhantes, para analisarmos pela experiência o sentido da leitura.  Daí a crescente necessidade de grupos de leitura,  como recentemente mostrou o jornal O Globo do Rio de Janeiro, onde opinamos num ambiente de camaradagem, em que todos são iguais e respeitam diferentes pontos de vista.

Quanto às críticas literárias que destroem autores e livros, digam-me:  — Para quê e para quem?   Mas se você acredita que deve de fato destruir um livro, faça-o seguindo as poucas regras que J. Robert Lennon coloca em seu texto:

1 – Coloque a obra em contexto, de preferência lendo o maior número de títulos do autor.

2 – Tenha humildade quando mostrar sua opinião.

3 – Se o escritor é novato, ainda está no terceiro ou quarto livro, dê a ele crédito.

4 – Não critique o trabalho de seu inimigo

5 – Não seja um idiota

6 – Seja ponderado

7 – Lembre-se que o mundo da crítica literária é pequeno e não se importe quando alguém abominar o seu livro.





Cantiga do lobo amável, poesia infantil de Stella Leonardos

27 06 2012

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Ilustração de Loubli Bengali.
Cantiga do lobo amável

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Stella Leonardos

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– Chapéuzinho, chapéuzinho

Vermelho cor de framboesa!

– Que queres, lobo daninho?

– Acompanhar-te, beleza.

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– Chapéuzinho, chapéuzinho

Vermelho cor de coral!

– Que queres, lobo daninho?

– Proteger-te de algum mal.

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– Chapéuzinho, chapéuzinho

Vermelho cor da alegria!

– Que queres, lobo daninho?

– Gozar tua companhia.

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– Chapéuzinho, chapéuzinho

Vermelho cor de carmim!

– Que queres, lobo daninho?

– Guardar-te sempre pra mim.

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Em: Fantoches, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1956.





Oscar Pereira da Silva um homem de seu tempo

22 06 2012

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Capa da Revista LIFE, de setembro de 1928, por Russell Patterson (EUA, 1893-1977)

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Zeitgeist  é uma palavra alemã largamente adotada, assim mesmo, em alemão, nas cadeiras humanísticas para expressar o espírito de uma época, representado pelo clima cultural, intelectual, espiritual, ético e político de um grupo de pessoas, de nações.   [A pronúncia é: ”zaitgaist”]. Para quem lida com a história da arte, da arquitetura, das manifestações artísticas e culturais em geral, essa palavrinha é um sinal taquigráfico indicando uma semelhança de pensamentos, comportamentos, de estética.  Já usamos essa expressão muitas vezes aqui no blog, mas como faz parte de um jargão profissional é interessante lembrá-lo principalmente quando nos deparamos com uma semelhança de imagens.

O conceito de zeitgeist é importante para o estudo da história da arte porque auxilia na determinação das fontes inspiradoras dos artistas.  Desde que o mundo é mundo, desde a  Grécia, de Roma, da Idade Média, Renascença, e aí por diante que pintores, escultores, artistas gráficos, se inspiram na obra de seus antecessores.  Às vezes as inspirações são óbvias, às vezes precisa-se de muito tempo e pesquisa para provarmos que este pintor ou aquele escultor estava familiarizado com o trabalho de um determinado antecessor.  Muitos e muitos estudiosos passam um bocado de tempo tentando re-organizar o passado para melhor compreender como se manisfesta ou como se perpetua uma determinada tendência nas artes.  E é sobre essa divulgação de formas e conceitos que hoje examino um trabalho de Oscar Pereira da Silva, um dos nossos grandes pintores do século XX.

Recentemente estive, por razões diversas, verificando as imagens gráficas das capas de partituras de músicas populares, para piano e canto do início do século XX.  Passei horas e horas em grande deleite, observando o trabalho de muitos artistas gráficos anônimos e alguns bastante conhecidos.  Até que me deparei com a capa para a música Dear Heart, de 1919.  Não sei se foi um grande sucesso na época, mas achei referências a ela na web.  Com música de W. C. Polla and Willard Goldsmith, e letra de Jean Lefarve, a partitura foi publicada em 1919 pela C. C. Church and Co. de Hartford, Connecticut.  Se você quiser ouvir a música, clique aqui.

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Dear Heart, 1919. de Jean Lefarve e W. C. Polla and Willard Goldsmith.

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Desconheço a autoria dessa belíssima capa.  Mas nela vejo uma bela melindrosa que olha diretamente para mim, o leitor, enfentiçando-me com seus grandes e amendoados olhos azuis.  O turbante cor de laranja esconde os cabelos negros, cortados à la garçonne típicos da época, deixando se entrever mechas, coquetemente enroscadas no que se denominava “pega rapaz“, que é aquela mecha de cabelos em forma de vírgula.  A rosa vermelha próxima ao nó do turbante compensa a longa linha do pescoço e reflete o carmim da boca entreaberta, convidativa, que parece dizer que essa melindrosa está pronta para se divertir, para sair dançando o charleston. Ela é misteriosa e sedutora.

Assim que bati com os olhos na capa dessa partitura me lembrei do quadro na Pinacoteca do Estado de São Paulo, Mulher com turbante, de Oscar Pereira da Silva, com uma moça semelhante. Não me lembrava da data, mas eu sabia que Oscar Pereira da Silva já havia falecido por volta dos anos 40.  Há exatamente 11 anos entre a capa de Dear Heart e o quadro brasileiro.  Lá está o mesmo espírito, o retrato do mundo pre-Segunda Guerra Mundial.  Melindrosas eram o tema nas artes gráficas através desses anos todos,  como a capa da revista Life, desenhada por Russell Patterson e publicada em setembro de 1928, reproduzida acima, demonstra.

Mulher com turbante, 1930

Oscar Pereira da Silva (Brasil,1867-1939)

óleo sobre tela, 41 x 33 cm

PESP — Pinacoteca do Estado de São Paulo

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Há semelhanças bastante perceptíveis.  Uma melindrosa, morena, com olhos azuis, rasgados e brilhantes de excitação olha diretamente para o observador.  Um turbante cor de laranja esconde seu cabelo escuro, cortado a la garçonne, com  sensuais mechas encaracoladas próximas às orelhas.  Na versão brasileira a melindrosa tem os lábios da cor do fundo do quadro, e um sorriso mais aberto, mais convidativo à diversão.  No lugar da rosa da capa acima, temos um ombro nu, sensual, que ajuda como a rosa anteriormente a compensar a longa linha de um pescoço colossal.  A versão tropical é muito mais exuberante, menos misteriosa mas tão sedutora quanto sua companheira americana.

Sabemos que no Rio de Janeiro do início do século XX o piano ainda era um instrumento encontrado na maioria das casas da classe média, com moçoilas casadouras.  Mesmo no início do século XX, muitas famílias ainda mantinham saraus e todas as moças da casa aprendiam a tocar piano. Muitas dessas partituras vinham do exterior.  Oscar Pereira da Silva conhecia bem esse hábito dos saraus.  Há um de seus quadros na Pinacoteca do Estado de São Paulo, A hora de música , reproduzido abaixo, que mostra exatamente esse uso do piano na família.

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Hora de música, 1901

Oscar Pereira da Silva (Brasil,1867-1939)

óleo sobre tela

Pinacoteca do Estado de São Paulo.

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Oscar Pereira da Silva foi um pintor que pemaneceu dentro dos parâmetros da pintura histórica e realista, não abrindo espaço em sua produção para as “novidades” das técnicas mais modernas.  Foi um retratista, um pintor de cenas históricas e sempre teve uma boa e tradicional clientela que o manteve produzindo até o fim.  Suas pinturas de gênero tendem a ser bastante detalhistas e é realmente só na maturidade que vemos um trabalho como A mulher com turbante, que tem uma leveza de traço, uma rapidez de pincelada, que se deve muito mais aos moldes modernos de pintura do que ao realismo minucioso ao qual Oscar Pereira da Silva é sempre associado.

Agora, levando em consideração a popularidade de certas canções, e a familiaridade do pintor e de todos na época com partituras para piano, a pergunta a fazer é:

Oscar Pereira da Silva conhecia essa capa de música?  Ou é isso simplesmente Zeitgeist?

©Ladyce West,2012








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