Leão, poesia infantil de Vinícius de Moraes

2 10 2014

 

 

LEAOCartão Postal.

 

Leão

 

Vinícius de Moraes

 

 

Leão! Leão! Leão!
Rugindo como um trovão
Deu um pulo, e era uma vez
Um cabritinho montês
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!

.

Tua goela é uma fornalha
Teu salto, uma labareda
Tua garra, uma navalha
Cortando a presa na queda

.

Leão longe, leão perto
Nas areias do deserto
Leão alto, sobranceiro
Junto do despenhadeiro
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!

.

Leão na caça diurna
Saindo a correr da furna
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não?
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!

.

O salto do tigre é rápido
Como o raio, mas não há
Tigre no mundo que escapa
Do salto que o leão dá
Não conheço quem defronte
O feroz rinoceronte
Pois bem, se ele vê o leão
Foge como um furacão
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não?

.

Leão se esgueirando à espera
Da passagem de outra fera…
Vem um tigre, como um dardo
Cai-lhe em cima o leopardo
E enquanto brigam, tranqüilo
O leão fica olhando aquilo
Quando se cansam, o Leão
Mata um com cada mão
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não?

 

.

Em: A arca de Noé:poemas infantis, Vinícius de Moraes, Companhia das Letrinhas, São Paulo:1991





As árvores e os livros, poesia de Jorge Sousa Braga

21 09 2014

 

2fb0be111d16e5ad6a868bbffd8d4a59

 

 

As árvores e os livros

 

 

Jorge Sousa Braga

 

As árvores como os livros têm folhas

e margens lisas ou recortadas,

e capas (isto é copas) e capítulos

de flores e letras de oiro nas lombadas.

 

E são histórias de reis, histórias de fadas,

as mais fantásticas aventuras,

que se podem ler nas suas páginas,

no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

 

As florestas são imensas bibliotecas,

e até há florestas especializadas,

com faias, bétulas e um letreiro

a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

 

É evidente que não podes plantar

no teu quarto, plátanos ou azinheiras.

Para começar a construir uma biblioteca,

basta um vaso de sardinheiras.

 

 

Em: Herbário, Jorge Sousa Braga, Lisboa, Assírio & Alvim: 1999





Generosidade, poesia de Cyra de Queiroz Barbosa

10 09 2014

 

 

gb_panneau aPanneau decorativo, 1921

Guttmann Bicho (Brasil, 1888-1955)

óleo sobre tela, 153 x 148 cm

MNBA — Museu Nacional de Belas Artes, RJ

 

 

Generosidade

 

Cyra de Queiroz Barbosa

 

à tia Nida

 

Os gatos da vizinhança

faminto, órfãos, pelados,

achavam pouso e aconchego

junto dela em nossa casa,

Mimoso, Dina, Miquito,

tantos outros — nem me lembro!

Ah! tinha a gata Pretinha

que lhe dava tão fecunda

cada vez ninhada inteira.

 

Era leite no pratinho

ou dado na mamadeira.

Enroscavam-se na colcha

de retalhos costurados,

cresciam e para ela

de miau! Miau! Miau!

serenata era cantada.

 

Não só de gatos gostava

a boa titia Nida.

Seus sobrinhos eram seus filhos

e mais outro de outro sangue

em amor reconheceu.

Por eles se abriu em risos

por eles muito sofreu.

Nada pedindo ou cobrando,

generosamente dando

a vida — tudo o que tinha –

para quem nem era seu.

 

 

Em: Moenda: painéis e poemas interiorizados, Cyra de Queiroz Barbosa, Rio de Janeiro, Rocco:1980, pp. 49-50





Caboclo Espirituoso, história contada em versos

1 09 2014

 

 

péChico Bento tem um pensamento desagradável, ilustração de Maurício de Sousa.

 

Caboclo Espirituoso

[de uma história contada por meus avós]

 

 

Walter Nieble de Freitas

 

 

“Nhô” Vicente, certo dia,

Montando o lindo alazão,

Foi fazer uma visita

Ao compadre Sebastião.

 

Cavalgou horas e horas,

Chegou ao entardecer:

Sua barriga roncava

De vontade de comer!

 

Ao vê-lo abrir a porteira,

“Nhô” Sebastião diz contente:

– Até que um dia compadre,

Você se lembrou da gente!

 

Apeie, vamos chegar.

Não repare na palhoça.

Como é que vai a comadre?

Vá entrando que a casa é nossa!

 

Tenho muito o que contar,

Sente-se aí no banquinho.

Você sabe que morreu

A mulher do Vadozinho?…

 

Também, a sogra do Zeca,

A jararaca mordeu:

A velha não sentiu nada

E a pobre cobra morreu!…

 

Sem perceber que a visita,

De fome quase morria,

“Nhô” Sebastião, na conversa,

Longas horas consumia…

 

“Nhô” Vicente paciencioso,

Tudo ouvia sem falar;

Porém, a sua barriga

Não parava de roncar!

 

Notando que seu amigo

Parecia nada ouvir,

Sentiu, o dono da casa,

Que o melhor era dormir.

 

Nesta altura, perguntou-lhe

Numa rural cortesia:

– O compadre lava os pés?

Vou mandar vir a bacia.

 

Respondeu-lhe “Nhô” Vicente,

– Isso não! de modo algum!

Acho muito perigoso

Lavar os pés em jejum.

 

 

Em: Barquinhos de papel, poesias infantis de Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Editora Difusora Cultural: 1961, pp: 75-78.





Os nomes — poesia infantil de Maria Alberta Menéres

21 08 2014

 

 

crianças na árvore, Ingela P ArrheniusIlustração de Ingela P. Arrhenius.

 

 

 

Os Nomes

 

Maria Alberta Menéres

 

Porque é que me chamo coelho
E não me chamo melão?

Porque é que me chamo lagartixa
E não me chamo cão?

Porque é que me chamo uva
E não me chamo chuva?

Porque é que me chamo Maria do Céu
E não me chamo chapéu?

Porque é que me chamo pedra
E não me chamo perna?

Porque é que me chamo cebola
E não me chamo papoila?

Porque é que me chamo casa
E não me chamo asa?

Porque é que me chamo Sol
E não me chamo Lua?

Porque é que me chamo Lua
E não me chamo caracol?

Cada coisa tem o seu nome
Para assim ser conhecida.

 

 

Em: Conversas com versos, Maria Alberta Menéres, Lisboa, Edições Asa:2005





Vamos brincar, lua! poesia infantil de Murilo Araújo

13 08 2014

-

-

Pierrot cantando ao luar, ilustração de John A. Ardema.

-

Vem brincar, lua!

-

Murilo Araújo

-

-

Cantemos rindo

canções douradas!

O luar é lindo

pelas estradas…

Rodem as rondas

com as mãos dadas!

Rodem nas rondas

os camaradas!

-

Há na floresta

que a luz debrua

alguma festa

que continua…

Rodem as rondas

pela floresta…

Dance na festa

Senhora Lua!

-

Não passam pagens

na redondeza

com carruagens

para a princesa?!

Rodem as rondas

com ligeireza!

Dance com os pagens,

Dona Princesa!

-

Não andam fadas

voando no ar

pelas estradas

cor de luar?

Rodem as rondas

descabeladas!

Senhoras fadas,

vamos dançar!

-

Pelas estradas

iluminadas…

Vamos dançar, dançar…

dançar!…

-

-

Em: Poemas completos de Murilo Araújo, Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti:1960





O Poliglota, poesia infantil de Jorge Sousa Braga

26 05 2014

 

???????????????????????????????Ilustração Belli Studio.

 

 

O Poliglota

 

Jorge Sousa Braga

 

Ele sabe palrar
Cacarejar
Arrulhar
Gorjear
Mugir
Vagir
Zunir
Latir
Berrar
Miar
Bramar
Chiar
Uivar
Ladrar
Rosnar
Grunhir
Zumbir
Rugir
Balir
Zurrar
Coachar
Chilrear
Grasnar
Cricrilar
Crocitar
E também sabe
Falar
Seja a língua que for

Até já o contrataram
Para o jardim zoológico
Como tradutor

 

Em: Poemas com Asas, Lisboa, Assírio & Alvim: 2001








Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 2.465 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: