A beleza do inacabado

30 04 2016

 

 

da vinciLa Scapigliata, 1508

[Cabeça e ombros de mulher]

Leonardo da Vinci (Itália, 1452-1519)

óleo sobre madeira (pinho) , 27 x 21 cm

Galleria Nazionale di Parma, Itália

 

 

O Metropolitan Museum Breuer, mais nova filial do Museu Metropolitano de Nova York, que ocupa o edifício do antigo Whitney Museum depois deste ter encontrado outra localização, tem no momento uma interessante exposição chamada Unfinished: Thoughts Left Visible, em que trabalhos que não foram acabados estão expostos ao público.

Sempre achei fascinantes as obras de arte inacabadas porque dão a nós, meros espectadores, a ideia de onde ou para onde o pintor ou o escultor iria.  São trabalhos que iniciam um diálogo com o observador. Completamos os traços deixados para trás.  Concordamos ou não com que o que foi feito.  Temos uma aula de pintura, de desenho, de como esculpir um peça de mármore simplesmente pela observação detalhada de um obra. Conversamos com os artistas através dos séculos.

A obra de Leonardo acima faz parte dessa exposição.  Abaixo coloco alguns do meus trabalhos “inacabados”, aqueles de minha preferência. Coloco aspas na palavra inacabado, porque há momentos, como na tela de Leonardo da Vinci que é difícil declarar se o artista deixou a tela inacabada, ou se simplesmente deixou propositadamente a tela “aberta” para que completássemos aquilo que não estava sendo retratado.

 

110hellDante: Divina Comédia, década de 1480

Sandro Botticelli (Itália, 1445-1510)

Iluminura em manuscrito [Ms Hamilton, 210]

Staatliche Museen, Berlim

 

 

309davidRetrato do General Bonaparte, 1797

Jacques-Louis David (França, 1748-1825)

óleo sobre tela, 81 x 65 cm

Musée du Louvre, Paris

 

 

 

26barbarSanta Bárbara, 1437

Jan van Eyck (Bélgica, 1395-1441)

Grisaille sobre madeira, 31 x 18 cm

Koninklijk Museum voor Schone Kunsten, Antuérpia

 

 

 

03daughtAs filhas do pintor com um gato, 1761

Thomas Gainsborough (Grã-Bretanha, 1727-1788)

óleo sobre tela, 75 x 62 cm

National Gallery, Londres

 

 

8patrieA pátria em perigo, 1832

François Gérard (França, 1770-1837)

óleo e carvão sobre tela, 86 x 96 cm

Coleção Particular

 

 

5late12Mulher em traje de montaria, 1882

Édouard Manet (França, 1832-1883)

óleo sobre tela, 74 x 53 cm

Museo Thyssen-Bornemisza, Madri

 

 

 

bathshebBetsabé [Bathsheba], 1832

Karl Pavlovich Bryollov (Rússia, 1799-1852)

óleo sobre tela, 173 x 126 cm

State Tretyakov Gallery, Moscou

 

 

 

42esterVirgem Maria, Menino Jesus e S. João Batista, 1508

Rafael Sanzio (Itália, 1483-1520)

têmpera e óleo sobre madeira, 29 x 22 cm

Szépművészeti Múzeum, Budapeste





As Garças, fábula de Leonardo da Vinci

20 06 2015

 

 

egret-lyse-anthonyGarça

Lyse Anthony (EUA, contemporânea)

aquarela, 24 x 16 cm

Lyse Anthony

 

 

 

Mais uma fábula de Leonardo da Vinci.  Quem  segue este blog  já sabe que além de grande pintor, arquiteto e cientista, o gênio da Renascença italiana também ficou conhecido por sua arte de conversar, e também de contar histórias.  Leonardo escreveu e anotou fábulas e contos populares, lendas e anedotas, organizando-as em volumes diversos.   Algumas dessas lendas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972.  Transcrevo aqui a fábula  As Garças do volume de Leonardo chamado: Lendas, H. 9r.)  Em: Fábulas e lendas, Leonardo da Vinci, São Paulo, Círculo do Livro: 1972, p. 42

 

 

As Garças

 

O rei era um bom rei, porém tinha muitos inimigos. As garças, leais e fiéis, estavam preocupadas. Havia sempre a possibilidade, principalmente à noite, dos inimigos cercarem o palácio e aprisionarem o rei.

— Que devemos fazer? pensaram elas. — Os soldados, que deveriam estar de guarda, estão dormindo. Não podemos confiar nos cães, pois estão sempre caçando e sempre cansados.  Nós é que temos que guardar o palácio e deixar nosso rei dormir em paz.

Então as garças decidiram tornarem-se sentinelas. Dividiram-se em grupos,  cada grupo zelava por uma área, com mudanças de guarda em horas determinadas.

O grupo maior postou-se no prado que cercava o palácio. Outro grupo colocou-se do lado de fora de todas as portas. E o terceiro decidiu ficar no quarto do rei, a fim de vigiá-lo o tempo todo.

— E se nós adormecermos? perguntaram algumas garças.

— Temos um modo de evitar adormercermos, respondeu a mais velha de todas. — Cada uma de nós vai ficar segurando uma pedra com o pé que estiver levantado enquanto permanecermos paradas. Se uma de nós dormir, a pedra cairá no chão e o barulho a acordará.

Todas as noites, desde então, as garças vigiam o palácio, mudando a guarda de duas em duas horas. E nenhuma, ainda, deixou cair a pedra.





Codice Romanov: presente no seu dia a dia…

3 06 2015

 

 

café Joseph_C_LeyendeckerLanche, ilustração de Joseph Leyendecker.

 

“A origem do guardanapo é muito interessante. Antes dele cachorros e coelhos eram utilizados para limpar as mãos dos comensais, já que o padrão medieval era o de comer com as mãos. Apesar de não oficial, atribui-se a origem desse artefato a Leonardo Da Vinci (1452-1518), por meio de um livro chamado Codice Romanov, constituído de anotações culinárias atribuídas a Da Vinci. Antes da inclusão como item indispensável à mesa, as toalhas de mesa e, em seguida, as mangas dos trajes serviam para limpar os lábios.”

 

Em: Sempre, às vezes, nunca – etiqueta e comportamento, Fábio Arruda, São Paulo, Arx: 2003, 8ª edição, p: 96.





Seria esse mais um Leonardo da Vinci?

21 03 2015

 

Isabella d’EsteRetrato de Isabella d’Este

Leonardo da Vinci (1452-1519) — ???

óleo sobre tela, 61 x 46,5 cm

 

O Retrato de Isabella d’Este, atribuído a Leonardo Da Vinci, foi recuperado em Lugano, na Suíça como resultado de uma complexa operação conjunta envolvendo o Ministério Público italiano em Pesaro, a Guardia di Finanza de Pesaro, e a Brigada de Tutela del Patrimonio Culturale em cooperação com autoridades suíças policiais que executaram um pedido de apreensão para a assistência judiciária internacional. A investigação desse caso começou em agosto de 2013, quando veio ao conhecimento de investigadores italianos que um advogado em Pesaro havia sido contratado para vender sem alarde, a pintura, que se encontrava em um cofre de um banco suíço, pertencente a uma família italiana. O preço: 95 milhões de euros. O retrato pertenceria a uma coleção particular de 400 obras, de propriedade de uma família italiana que pediu para não ser identificada. O Retrato de Isabella d’Este foi provavelmente comprado pelos avós dos atuais proprietários, dizem eles que há mais de um século. As suspeitas de que a pintura possa ser um genuíno da Vinci levaram à investigação científica.

O retrato criou uma celeuma internacional anterior quando o professor Carlo Pedretti da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), especialista na obra do pintor renascentista Leonardo da Vinci, atribuiu o quadro ao pintor. Dr. Pedretti reconheceu na pintura o esboço desenhado por Da Vinci por volta de 1449-1450. O desenho a giz retrata Isabella d’Este, Marquesa de Mântua, [Museu do Louvre, Paris]. Há, no entanto, uma grande incógnita a respeito: historiadores de arte têm debatido desde sempre se Leonardo de fato nunca pintou o retrato para o qual há o esboço. O mistério de 500 anos poderá ser solucionado com o quadro no banco suíço.

 

 

Da-Vinci-Isabella-DEsteDesenho a giz no Louvre e o quadro encontrado na Suíça.

 

Estima-se que Leonardo o tenha pintado a caminho de Veneza, vindo de Mântua, no final de 1499, quando o exército francês sitiou Milão. Leonardo da Vinci se juntou a todos os que fugiram da cidade. Em seu caminho para Veneza, o artista encontrou refúgio na cidade italiana de Mântua, centro político e artístico da Lombardia. Era convidado da nobre Isabella d’Este.

 

ashmolean, copia de LeonardoCópia de época do desenho de Leonardo, Ashmolean Museum, Oxford.

 

O especialista na Renascença Italiana e em Leonardo da Vinci especificamente, Dr. Martin Kemp, professor emérito de história da arte no Trinity College, Oxford, questionou a autenticidade da tela. Ele acredita que “não era o tipo de tela usada por Leonardo ou qualquer um de seu ateliê”.

Se a autenticação da pintura for correta, será uma descoberta histórica. Há no mundo só vinte-três grandes obras de arte atribuídas a Leonardo da Vinci. Sua preferência para suporte na pintura foi sempre a madeira, preferencialmente álamo ou o papel. No entanto, independentemente da atribuição, parece que a pintura foi exportada ilegalmente da Itália sem o benefício de uma licença de exportação apropriada e enquanto não está claro se a família enviou a pintura para a Suíça, para evitar roubo ou evasão de impostos, a sua remoção viola a lei italiana.

A Itália tem regras bem rígidas que exige que qualquer obra de arte com mais de 50 anos de idade, feitas por um artista morto, precise de uma licença especial para ser exportada. Isso vale para mudanças temporárias, (no caso de empréstimos para exposições, por exemplo) bem como vendas permanentes. Isso torna a falta de documentação sobre esta obra notável e altamente suspeita. A lei italiana sobre o movimento de obras de arte foi aprovada em 1939 especificamente para prevenir que obras-primas da arte antiga e renascentista saíssem ou cruzassem as fronteiras do país.

 

 

AP2004_01_MAINRetrato de mulher, provavelmente Isabella d’Este, c. 1500

Atribuído a Gian Cristoforo Romano (c. 1465-1512)

Terracota, [já foi policromada, mas perdeu a cor]

54 x 56 cm

Kimbell Art Museum, Fort Worth, Texas

 

Na Itália, o óleo de Isabella d’Este passará por uma avaliação mais aprofundada para determinar se o trabalho deve ou não ser confirmado, de forma conclusiva, como tendo a autoria de Leonardo da Vinci. Se não foi, será considerada uma obra “no estilo de”. A pintura, que mede 61 x 46,5 cm, certamente corresponde ao esboço de giz sobre papel da Marquesa de Mântua, no Louvre.

Sabe-se que Isabella d’Este escreveu duas cartas a Leonardo, em que solicitava obras de arte. Mas em ambas ela pedia o retrato de Jesus Cristo. Ela era uma colecionadora de antiguidades, uma patrona das artes, e uma das mulheres mais elegantes e poderosas do Renascimento italiano. Comissionou trabalhos a diversos outros pintores: Giovanni Bellini, Rafael, Ticiano. Portanto, não seria improvável que um pedido de um retrato também pudesse ter sido feito a Leonardo.

Datação por carbono realizada por um laboratório de espectrometria de massa na Universidade de Arizona confirmou que havia uma probabilidade de 95,4% que a obra tenha sido pintada entre 1460 e 1650. O exame de fragmentos retirados do trabalho mostrou que os pigmentos do retrato coincidem com aqueles usados por da Vinci e que a base foi preparada de acordo com a mesma receita detalhada pelo mestre.

Suspeita-se que da Vinci possa ter concluído o retrato depois de encontrar d’Este novamente em Roma, em 1514. O retrato de colorido muito rico mostra uma transposição fiel do esboço no Louvre. A postura da senhora retratada, seu penteado e vestido são quase idênticos. Ela traz o sorriso enigmático que perdura nos lábios conhecido nas obras de da Vinci, como a Mona Lisa. A tiara dourada na cabeça de Isabella d’Este e a folha de palmeira ela segura como um cetro são detalhes não encontrados no esboço e podem ter sido adicionados por alunos de da Vinci.





Juntem suas economias! Mona Lisa à venda?

7 09 2014

 

0monalis

Mona Lisa (La Gioconda) c. 1503-5

Leonardo da Vinci (1452-1519)

Óleo sobre madeira, 77 x 53 cm

Museu do Louvre, Paris

 

 

Há dois dias o jornal da O Globo anunciou que a tela mais famosa do mundo, Mona Lisa de Leonardo da Vinci está sendo considerada como um bem a ser vendido pelo governo francês para equilibrar as finanças do país.

Avaliado em USD$2.500.000.000,00 [dois e meio bilhões de dólares], sua venda facilitaria o período difícil em que a França se encontra.  Duvido muito que isso chegue a se concretizar.

Acho que o povo francês não aceitaria essa venda.  A Mona Lisa, o Louvre, a cultura francesa, estão todos muito bem tecidos uns nos outros, apesar de a Mona Lisa ter sido pintada por um italiano.   Leonardo, que morreu na França, levou essa tela com ele, primeiro de Florença para Milão, depois de Milão para a França onde se abrigou nos últimos anos de vida.  Além disso o quadro está na França desde o século XVI, quando François I o adquiriu ou do próprio Leonardo, ou do seu espólio.

Além disso, o turismo gerado pela tela — diga-se há muita gente que só vai ao Louvre para ver a Mona Lisa e nada mais —  iria agora passar para outro país?  Vamos ver a Mona Lisa em Dubai?  Ou em Xangai?  Tenho dúvidas.

É mais certo que Hollande esteja querendo mostrar ao povo da França a gravidade da crise econômica. Esperemos.

 





26 de julho, FELIZ DIA DOS AVÓS

26 07 2013

Leonardo+da+Vinci+-+The+Virgin+and+Child+with+Saint+Anne+

A Virgem Maria, o Menino Jesus e Sant’ Ana, 1508

Leonardo da Vinci (Itália, 1452-1519)

Óleo sobre madeira, 165 x 112 cm

Museu do Louvre, Paris





O jumento e o gelo, uma fábula de Leonardo da Vinci

8 11 2011

O jumento e o gelo, ilustração de Adriana Saviossi Mazza.

Mais uma fábula de Leonardo da Vinci.  Quem vem seguindo este blog  já sabe que além de grande pintor, arquiteto e cientista, o gênio da Renascença italiana também ficou conhecido por sua arte de conversar, de contar histórias.  Também escreveu e anotou fábulas e contos populares, lendas e anedotas, organizando-as em volumes diversos.   Algumas dessas lendas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972.  Transcrevo aqui a fábula O jumento e o gelo do volume de Leonardo chamado: Fábulas, Atl. 67 v.b.)  Em: Fábulas e lendas, Leonardo da Vinci, São Paulo, Círculo do Livro: 1972, p.34.

A fábula de hoje, tem uma moral conhecida nossa, sabedoria popular, vinda da tradição latina através de Portugal: Quem avisa amigo é.

O jumento e o gelo

Era uma vez um jumento que estava muito cansado e sentiu-se sem forças para ir até o estábulo.

Isso aconteceu no inverno, e fazia muito frio.  Todas as ruas estavam cobertas de gelo.

— Vou ficar aqui, disse o jumento, deitando-se no chão.

Um pequeno pardal voou para junto dele e murmurou-lhe ao ouvido:

— Jumento, você não está na rua, mas sim sobre um lago congelado.  Seja prudente!

O jumento estava cansado.  Não tomou conhecimento do aviso.  Bocejou e adormeceu.

O calor de seu corpo começou aos poucos a derreter o gelo, que, finalmente, estalou e partiu-se.

Ao ver-se dentro d’água, o jumento acordou aterrorizado.  E enquanto nadava na água gelada, arrependeu-se por não ter ouvido o conselho do pardal amigo.

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Nesse blog temos também:

A Raposa e a pega, de Leonardo da Vinci.








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